Atônito estava o pessoal. Só não, mais; pr’ocupado c’um numsei cumquê que bem sabiam. Dentro d’casa o clima expectava como se notícia grave estivesse ou viesse. E era verdade, viria mesmo! Todas sabiam disso, prévia e silenciosamente. Estava claro, ou melhor, estava ficava pret'a coisa!
Tinham uma sensação estranha, d’chão que sai de sob’os pés, todavia não rezingavam. Quietas se faziam em suas posições tão próprias. Era cogente! Aliás, nem adiantava falar mesmo: não havia com’evitar o
que viria. As mais calmas passeavam olhos pelo teto sem forro; buscavam nuvens pra encavalar agonias. As mais agitadas... ah, essas roíam unhas, mordiscavam os lábios, engoliam a seco o momento. Ninguém nada dizia nada. Nem um sussurro se permitia. Militarmente!Claro que o tumular da calad’incomodava. Quando alguém delas intentava balbuciar alguma expressão, logo o murmúrio se fazia trovão e também amofinava; um orquestrado olhar de cara-feia por todas nes’tante era o sinal à ousada da vez para o retorno à mudez que se lhes derramava soberana, imperial! Não adiantava espernear, não havia com’evitar. E viria mesmo! Todas tinham consciência disso.
Folhas caindo soltas ao chão tinham idêntica acepção para todas elas que isso viam, e era o único e fatal sinal de que o d’mal e pior porviria: muitas já se esfarelavam pelo maduroso da inclemência do tempo. Mas algumas delas se mantinham agarradas, a unhas e dentes, fugindo à submissão do inevitável fenecimento. O término s’aproximava cada vez mais. Pensavam, sabiam, sofriam, mas resistiam!
O pior mor maior: nunca mais voltariam a ser o qu’eram. Jamais veriam de novo as quantas alegrias até ali presenciadas, as caras d’entusiasmos assistidas, as quantas surpresas outrora, e até alguns desapontamentos entremeados. Entretanto, inflexível como fogo em carvão e papel er’a consumação; sabiam! Mas se mantinham silenciosas. Não havia outro jeito. Gritar? D’nad’adiantaria. Seria só s’expor truão, risivelmente. Mais que; um ato de covardia, criam ness’ora.
– Da morte ninguém escapa mesmo, pessoal! E nós todas aqui já estamos com nosso destino traçado. Não vai adiantar tentar correr. É impossível fugir! – gritou a primeira, com postura de general tirano em alto d’escadaria, pern’abertas, à frente de batalhão dand’ordem de ordinário-marche!
De fato! Era desmarchar ou... morrer; pensavam a toda hora! Marchar não dava; amargura incessante essa. Porém, mesmo diante de tanta certeza do sucumbimento inda lhes pairava uma tênue névoa d’esperança, d’vida, de recomposição, de renegociação. Esperavam para ver no que dava, e como se daria. Era o que bastava e se podia.
D’inopino o baque da porta golpeando forte o batente ribombou cas’adentro.
– Alguém chegando!... ¿Quem será? ¿Revogaram? Ai-meu-deus, é agora!! – assombravam-se umas às outras.
Foi quando a filha chegou, e de plano lhes deu voz serena:
– Fiquem calmas... Já conseguimos dar solução,... pr’essa agonia de vocês todas. Não haverá exéquias por aqui, porque ninguém vai morrer não! Aqui e hoje não!!!
Bendit’aquelas doces afirmações tão esperadas; eram notas musicais fugindo de partituras ao ar. Breve alegria principiou se derramar sobr’elas todas ali.
– ¿Mas como? Não tem jeito! Está tudo s’esfarelando! Todas acabaremos sim! Ess’aí, bonitinha e com voz docinha, só quer nos engodar, reduzir nossa dor perto da morte, mas depois..., na hora agá... ela vai ficar aí num cantinho, olhando, olhando, sem poder fazer nada, chorando nossa partida pro inexorável beleléu..
Eis que aparteou rispidamente uma outra delas:
– Cal’a boca! Você nem sequer esperou ela terminar de dizer o que estava começando...!?
– Sem discussão, pessoal, por favor! Deixem eu falar. – cortou a dissensão a filha. E prosseguiu:
Num átimo o semblante delas se descarregou orquestral, surpresas pela revida:
Assim a alegria voltou ao coração de todas as letras do velho dicionário Aurelião; escaparam das lâminas implacáveis da fragmentadora, dos banhos ácidos, solventes e detergentes, e das águas ferventes da reciclagem ...
Comentário d’A BALESTRA:
É que esse Aurelião – antes do seu filho eletrônico chegar – por tantos anos acompanhou-me Brasil afora. Esteou-me no curso de Direito, nas crônicas, contos, poemas, sonetos, letras de músicas, e noutros escritos ou garatujas que já fiz. Foi companheiro por noites e madrugad’adentro, em horas difíceis da vida, as d’inspiração em profusão ou as de sua total ausência, e até as das fugas disso tudo.
Ah, já me falaram muito dum tal de Houaiss, mas pensei: - trocar pra quê, uai!¿ Arrumei outro Aurelião, mais jovem... Mas o velho fica!
Foto: by arquivo pessoal de José Roberto Balestra





















