“QUANDO AS SOMBRAS AMEAÇAM O CAMINHO, A LUZ É MAIS PRECIOSA E MAIS PURA."

(Espírito Emmanuel, in "Paulo e Estêvão", romance por ele ditado a Chico Xavier)

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segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Papelzinho de bala (12.06.2008)


Lembro-me da primeira vez que vi você caminhando pela minha rua. Era manhã duma quinta-feira, fazia um pouco de frio, um arzinho gelado, chato, e você ia com pressa, mas pisava tão leve que sequer eu ouvia o som de seus sapatos tocando o chão enquanto passava perto de mim. Com sua roupa simples e bonita, parecia flutuar, mas muito além de ser só bonita sua roupa; caia-lhe especial. Sem me dar conta do tempo, do portão fiquei te olhando, te olhando, você indo já lá longe, quase no fundo da rua, foi ficando menor, menor, até que sumiu num cruzamento.
Voltei para dentro de casa, retomei a ordinariedade das coisas tão triviais da vida; o arrumar da cama, o dobrar minhas roupas que usava em casa, o escovar e o guardar dos sapatos na gaveta. Assim ia eu meu dia. Todavia, de repente vi que sua imagem andando fincara-me, fixada como um painel de rua no breu da noite chamando sua presença: iluminava-se, crescia, eu olhava, via, e depois tudo ia sumindo afunilado. Em pouco, como as ondas de um lago em dias de vento brando, voltava. Sinceramente, não entendi o porquê daquilo comigo.
Mas saí também à minha faina; era preciso trabalhar. Sem perceber o meu projetor daquele filminho desligou-se. As coisas da cidade, os carros passando, a vida corrida, meus anseios de vitória, o trabalho, os bancos, a escola, contas pra pagar, o namoro rápido às vitrines das lojas com a moda chegando, tudo isso me reconduziu à normalidade, à velha ordinariedade de que falei.
A semana acabou, veio o domingo. Fui à missa das sete na catedral, lugar mágico que a gente, esquecendo as vaidades tão vãs, acha que fica mais perto de Deus de verdade. À saída do templo assustei-me: vi você de novo. E como uma caixa de tarol à frente duma fanfarra, meu coração rufou acelerado. Pensei que ia morrer. Mas se fosse, teria sido muito bom ter morrido daquele jeito, feliz, te vendo! De novo você, sem perceber nada que comigo acontecia, se misturou ao povo que respeitosamente deixava a igreja. Desapareceu como bruma ventilada...
Parei na escadaria da catedral, olhei para os lados para te achar, e por fim conclui: sumira mesmo dos meus olhos, que pena! Resolvi ir pra casa. Misturei-me também à pequena multidão. E quando parei na calçada para olhar os carros e atravessar a rua, novamente outro luminoso susto me invadiu; você estava ali, pertinho de mim, até ao alcance de minhas mãos, desenrolando o papel duma bala de cereja.
Como se conhecidos fôssemos de muito tempo, meus olhos cruzaram-se com os seus. Você me sorriu. Depois é que percebi que eu, ao impulso do coração rufando, houvera lhe sorrido primeiro. Você apenas me respondera. ¿Ou correspondera? Atacou-me essa dúvida insana. Fingi esperar um pouco, e assim que você atravessou a rua, discreta e rapidamente abaixei-me e peguei o papelzinho de bala, da sua bala. O vento repentino dum carro que passava o soprou para mais longe de mim, mas apressei-me e pude recolhê-lo sem você ver. Enrolei-o em borboleta, com carinho. Por algum tempo fiquei olhando pr’aquilo. Depois, levantei os olhos. Não mais lhe vi. Então guardei comigo o meu troféuzinho do coração.
Os ventos da vida fizeram seus itinerários sobre mim, até que num sábado de manhã, enquanto eu comprava uma revista na banca, sem que eu visse você chegou bem perto de mim e disse bom dia! Pensei que fosse alguém cumprimentando o dono da banca, e continuei olhando as capas expostas, distraidamente. Mas aí, mais perto de mim, você me desmontou ao repetir: – Bom dia! Como vai? E antes que a resposta presa na minha garganta saísse você quase me matou do coração:
– ¿Ainda está guardado?
– ¿O quê?
– O papelzinho de bala?!
Sem palavras, naquel’instante meus olhos correram-lhe o corpo de cima a baixo. Sorri sem graça, disfarcei um olhar sobre as revistas e jornais expostos e, perdoe-me aquele meu atrevimento, mas eu não pude me conter quando meus braços, como um autômato, levantaram-me as mãos e foram encontrar-se com as suas que estavam tão quentinhas. Foi mais que um aperto de mãos aquele cumprimento: eu te abracei sem você saber...
Um fiozinho de raio de sol bateu em meus olhos. À estranha sensação, acordei. Olhei para o teto, reviajei comigo:
– ¿Que coisa? ¿Sonho? ¿Que sonho lindo eu tive? Dá um conto, ou mais... Puxa!...
Então sentei-me na beira da cama, pisei o macio do tapete de algodão trançado, esfreguei o rosto com as mãos, enchi os pulmões com o ar novo do dia, espreguicei-me, e só então foi que vi sobre o criado-mudo:
- ...um papelzinho de bala? Borboleteado? ¿Então não foi um sonho?...
... e senti quando todas aquelas maravilhas se recolheram pro mais fundo do meu coração, na sua morada perpétua.


domingo, 7 de agosto de 2016

VANDER LEE: O DOMADOR-POETA-CANTOR QUE LAÇAVA ACORDES E VERSOS


Quase toda noite gosto de sair para o jardim de meu quintal à frente da casa, onde me ponho solitariamente às reflexões da vida enquanto do mosaico da calçada observo os verdes vários vivos que do chão brotam; o olivado da grama esmeralda tapetando, o verde-amarelado dos crótons e dos pingos-de-ouro iluminando o ambiente, o verde-alface dos buxinhos (com xis mesmo), o das folhas do manacá-da-serra ocultado pelas lindas flores roxas da época, algumas flores vermelhas avulsas destoando, todos contrastando com a candura branca das pedras dolomitas e os marrons das cascas de pinus que dormem seus silêncios às bordas.

São momentos curtos meus, porém, o bastante para a extensão e a profundidade de meus pensamentos fluírem acerca dos fatos da vida presente e passada, todavia, sem grandes ansiedades pelo porvir, porque, enquanto desapegado, também creio que ele, o futuro, realmente a Deus pertence, como bem o diz o salmista no Livro-Santo: “Entrega o teu caminho ao Senhor; confia nele, e ele o fará.” (Salmos 37:5).

Na sexta-feira à noite, fui sobressaltado por uma notícia que me deixou deveras comovido:  o desencarne do ainda jovem cantor e compositor mineiro Vander Lee, a quem, enquanto músico que desde os 12 anos de idade procurei ser, descobri por volta de 2010, através duma canção cuja letra altamente inspirada e profunda, a tomei como legítima oração ditada pela voz de um coração-poeta em eterna definição das dores da alma que ama. Era a canção “Onde Deus possa me ouvir”.  À época a publiquei num post aqui

Dali em diante, como é comum a todo fã verdadeiro que não se embaraça em confessar sua afeição pela obra de um artista, passei a procurar vídeos e a ouvir a harmoniosa voz de Vander Lee, a tirar suas músicas ao meu violão, a assimilar as riquezas harmônicas das canções, em geral por ele construídas com acordes dissonantes vibrantes como os girassóis de Van Gogh, em movimento vivo constante feito o das bailarinas de Edgar Degas, com semelhante sentimento de impacto dos acordes de uma Ave Maria de Gounod sobre certo prelúdio de Bach.

Ontem à noite tornei ao jardim. Olhando vagamente às plantas e ao firmamento, as canções de Vander Lee vibrando em meus ouvidos e a lembrança de que seu corpo descera à campa por volta das 10 da manhã desse sábado, e que assim sua obra estava definitivamente demarcada no tempo pelo Criador do Universo, tudo isso me fez conjeturar sobre a pequena compreensão que temos sobre o quão breve e complexa é nossa passagem por este Plano.

Por um lado as alegrias na abertura dos jogos olímpicos no Rio de Janeiro e, por outro, a comoção que havia pouco mais de quatrocentos quilômetros dali tomava conta da família e dos circunstantes que madrugada adentro faziam o guardamento do corpo de um poeta-cantor “VANDER LEE”, registrado Varderli Catarina e nascido em Belo Horizonte em 03.03.1966, chamado que fora pelo Divino Pai Eterno para a Volta à Origem, não obstante seus cinquenta anos completos, mais da metade deles vivendo e cuidando de sua família com os resultados de seu talento na música, e que planejara em 2017 comemorar os vinte anos profissionais de arte e poesia através de um CD recém gravado no Rio de Janeiro. Tudo isso foi interrompido pelo Chamado.

Mas se esse fato surpreendeu a todos, com certeza não a ele Vander Lee, porque havia muito que já se preparara para a Volta, escrevendo uma conversa sua com o Divino Pai Eterno, que lindamente musicara, intitulada “Alma nua”, cuja partitura o acompanhou na última morada, como manifestara ser seu último desejo.

Enfim, se é certo que o artista deixou este Plano, que ficamos mais pobres pela falta de seu talento entre nós, dúvidas não tenho de que seu espírito hoje é mais uma estrela fulgurante no Firmamento. Assim, nestas linhas de fã de sua obra que sou, rendo-lhe minha modesta homenagem: MEDALHA DE OURO PARA O LUMINAR INTENSO DE VANDER LEE E SEU VIOLÃO QUE SE CALOU! 

Descanse em PAZ, Menino-Poeta! Um dia todos nos reencontraremos…



Foto: by Jornal Tribuna Hoje

domingo, 17 de julho de 2016

CHAS CHANDLER, o baixista d'A CASA DO SOL NASCENTE


Hoje faz 20 anos que Bryan James “CHAS CHANDLER” (18.12.1938 - 17.07.1996) morria em Londres, vitimado por um aneurisma na aorta.

CHAS CHANDLER era inglês, e também foi produtor musical, mas ficou conhecido como o contrabaixista do grupo THE ANIMALS, uma banda de rock britânica dos anos 60, formada em Newcastle, cidade do condado metropolitano de Tyne and Wear.

Essa banda hoje em dia ainda é reconhecida por seu hit da época, 1964, “The house of rising sun” (“A casa do sol nascente”), uma música folclórica americana cuja letra fala de uma vida mal-sucedida em New Orleans, no Estado da Louisiana.

A sequência harmônica dessa melodia, por ser de facílima execução, em geral é das primeiras que todo violonista ou guitarrista principiante popular aprende a tocar.


Nota: no vídeo Chas é o músico à esquerda 

CHAS CHANDLER foi quem conduziu o maior guitarrista de todos os tempos à fama, Jimi Hendrix, a quem conheceu tocando num local nova-iorquino chamado Cafe Wha?

Em seguida Chas levou Jimi para Londres onde, em outubro de 1966, juntou a ele dois outros músicos ingleses, Noel Redding no baixo e backing vocal, e Mitch Mitchell na bateria. E assim estava formada a histórica banda “JIMI HENDRIX EXPERIENCE”.

Chass tornou-se agente-empresário da banda e permaneceu durante toda a sua breve existência, de 1966 a 1970, quando nas primeiras horas de 18.09.1970 falecia Jimi Hendrix, em circunstâncias nunca bem esclarecidas totalmente.

Chas gostava de tocar baixo num instrumento da marca americana Gibson, modelo EB2. 












Fontes e imagens: by web

sexta-feira, 8 de julho de 2016

segunda-feira, 27 de junho de 2016

O FAMIGERADO DE CORDISBURGO



Em Cordisburgo, Minas Gerais, hoje é só festejo
Pela saudade do filho mais sublime;
Há 108 anos lá nascia Joãozito,
Cristianizado como João Guimarães Rosa,
E abençoado como o Escritor-Mor das Gerais.


 


FAMIGERADO



Imagem: by web ("Joãozito" é João Guimarães Rosa ainda menino)

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016