Hoje está fazendo cinco anos que, depois de cinqüenta e três anos juntos, nos separamos. Tem horas que acho que isso é tempo demais. E logo me dou conta de que tudo parece ter sido ontem. Não. Não falo do tempo juntos, falo desses cinco anos agora.
Há dias venho pensando muito em você, nas coisas que nos falamos, no seu jeito simples mas especial de ser, no seu dom de fazer amizades... Coisas da saudade, eu sei. Ah, lembra-se de quando eu pensava em você com um pouco mais de percepção, e logo vinha a confirmação de que você também estava pensando em mim, me chamando pra perto de você? É. A gente ria disso, não? Era muito bom... e inesquecível!
Olha, como diz o autor aí do texto, coração da gente é terra que ninguém entra mesmo; toda vez que a saudade de você me envolve, pego o violão e, sozinho na sala, dedilho aquela canção instrumental que escrevi especial pra você com muito amor. E ninguém em casa percebe esse instante, exceto eu e meu coração. Melhor assim, acho. Ficamos só nós dois, né?
Domingo você não me saía da cabeça, e até imaginei que daí também pensava em mim, e talvez até tivesse alguma coisa pra me dizer. Isso ainda é coisa daquela força que sempre nos uniu, não? Então fiquei a tarde toda ouvindo as muitas canções de Vicente Celestino que eu sei você mais gostava: Patativa, Luar do sertão, Coração materno, Rasguei o teu retrato, O ébrio, Noite cheia de estrelas e tantas outras, que ouvi e reouvi por diversas vezes, sem me cansar.
Mas foi em Ouvindo-te, daquele elepê que você tinha, que a saudade arrochou mais. Consegui até ver você pelo quintal, na sua cozinha, de aventalzinho, cantando-a
lindamente, no mesmo soprano só seu, com aqueles seus hábeis floreados na voz, tal qual Gilda de Abreu, mulher de Vicente....e eu tenho certeza de que VOCÊ ESTAVA PERTO DE MIM naquele instante, Mãe, porque a senti!
Fonte do excerto: livro Vermelho Amargo, do escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós. São Paulo : Edit. Cosac Naify, 2011, p. 44.
















